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A criativa Logística Reversa do Brasil

Publicado em 06/03/2018
Fonte: Revista Ibema Por Você - 13

Um arranjo informal e criativo destina mais de 60% das embalagens produzidas no Brasil para as fábricas, após entregar seu conteúdo aos consumidores de todo o país. A produção de embalagens é um componente
importante na economia das nações desenvolvidas. Isto se deve ao fato dos produtos precisarem estar protegidos, fracionados e rotulados para serem distribuídos. Hoje, mais de 80% do que é produzido nas fábricas acaba sendo encaminhado ao mercado dentro de algum tipo de embalagem.

As motocicletas Harley-Davidson, por exemplo, produzidas na fábrica de Manaus, chegam às concessionárias embaladas em caixas de papelão ondulado, reforçadas internamente com suportes de madeira. Os equipamentos industriais são embalados em caixotes de compensado, o café é exportado em sacos de ráfia, o suco de laranja em tambores de 200 litros, as frutas e verduras são levadas das lavouras em caixas e quase todas as embalagens de produtos menores circulam pelo país dentro de caixas de papelão.

O fornecimento de embalagens é tão importante que, na eventualidade da falta deste insumo na produção, a maioria dos produtos não conseguiria deixar as fábricas e as empresas parariam de emitir notas fiscais.

A indústria brasileira de embalagem está alinhada tecnologicamente e em capacidade de produção com suas congêneres internacionais que estão presentes no Brasil – 18 das 20 maiores do mundo no segmento. O Brasil produz e exporta muitos tipos de embalagens e o setor gerou, em 2014, o faturamento de R$ 48 bilhões, o que representa uma parcela significativa do PIB nacional.

As empresas que atuam no segmento de consumo, a indústria farmacêutica, os fabricantes de bebidas, cosméticos, eletroeletrônicos e todos os demais produtores que utilizam embalagens despejam diariamente no mercado milhões e milhões de unidades. Para se ter uma ideia, um fabricante de cereal matinal produz 45 milhões de caixas por mês, ou 1,5 milhão delas por dia; uma única marca de sabonete consome mais de 200 toneladas por mês de papelcartão para suas caixas e um fabricante de doces coloca no mercado mensalmente 4,5 milhões de quilos de balas embaladas uma a uma. Milhões de garrafas de cerveja, refrigerantes e água mineral circulam pelo país, sem falar nos medicamentos distribuídos em farmácias, hospitais e postos de saúde, numa operação logística grandiosa que enche as estradas de caminhões carregados.

Fazer com que todas estas embalagens recebam um encaminhamento adequado após serem entregues no destino final não é tarefa fácil. O destino destas embalagens pós-consumo se torna um problema para as prefeituras municipais, a quem cabe providenciar a coleta de lixo, pois este é o destino dos assim chamados “Resíduos Sólidos Urbanos”, em que as embalagens figuram como um dos componentes.

Quando se trata deste tema, a questão ambiental tem dominado de tal forma os debates sobre o que fazer com o lixo urbano que vem sobrepujando inclusive a questão do saneamento público, a ponto de merecer a promulgação de uma lei federal específica para tratar do destino de tais resíduos. Esta legislação prevê a ação integrada e a responsabilidade compartilhada entre estado, empresas e sociedade e objetiva reduzir os problemas decorrentes do impacto ambiental causado pelo lixo urbano.

Um dos seus principais objetivos é ampliar os índices de reciclagem por meio de compromissos com metas a serem alcançadas progressivamente. Sem dúvida, a adoção da Lei de Resíduos Sólidos vai trazer no futuro benefícios para os três agentes comprometidos com sua aplicação, ou seja, o poder público, as empresas e a sociedade em geral. Vale a pena dar uma olhada no panorama atual da reciclagem de embalagem no Brasil e a logística reversa empregada em sua operação para avaliarmos o estágio em que nos encontramos.

Mas antes vale lembrar que não é de hoje que a reciclagem de embalagem está presente na vida cotidiana dos brasileiros. Desde os tempos do Brasil Colonial, escravos com seus cestos na cabeça percorriam as ruas apregoando seu característico grito “garrafeeeeeiro”. O garrafeiro com seu pregão faz parte das nossas tradições, aparecendo no cancioneiro popular, na poesia e na iconografia de época. Quando menino, no interior, meus amigos e eu coletávamos garrafas, papel, papelão e outros materiais para vender no “depósito de ferro velho” e, com o dinheiro arrecadado com esta venda, comprávamos a bola e o jogo de camisas do nosso time.

Estes depósitos formam, desde o início do século, uma rede de sucateiros que se propõe a comprar o que as pessoas levam até eles e o que os catadores por eles estimulados ou empregados recolhem nas ruas e nas casas.

Da mesma forma, a coleta e a reciclagem de embalagens no Brasil funciona com a organização informal de milhões de pessoas que se mobilizam por dinheiro, necessidade, ou por idealismo militante para encaminhar embalagens para os centros recicladores e sucateiros, fazendo com que, a partir deles, elas cheguem às fábricas para serem reprocessadas.

É importante frisar que o grande promotor desta atividade é a própria indústria de embalagem, que tem forte interesse econômico na reciclagem e procura adquirir tudo o que consegue encontrar, pois produzir a partir de material reciclado é, na maioria das vezes, bem melhor e mais lucrativo do que produzir a partir da matéria-prima virgem. Podemos citar como exemplo a produção de papel com aparas e material recolhido do lixo de escritórios e residências, oriundos da reciclagem, pois o custo de produção de uma tonelada de produto acabado cai pela metade em relação ao fabricado com celulose virgem originária das florestas plantadas.

No caso do vidro, este número é também bastante expressivo, por causa da economia de energia obtida com a redução na temperatura necessária para fundir o vidro reciclado, que é bem mais baixa, gerando economia substancial no consumo de gás ou eletricidade. Tanto é assim que os fornos que estão produzindo hoje embalagens de vidro âmbar funcionam alimentados com 90% de cacos reciclados, em substituição à areia, ao calcário e ao feldspato, materiais com que o vidro originalmente é feito. Coisa semelhante acontece com a produção de aço. Hoje no mundo, 60% da produção é feita a partir do aço reciclado e só 40% com minério.

A indústria, portanto, tem muito a ganhar com a reciclagem de embalagem e se empenha para conseguir alcançar índices cada vez maiores na substituição das matérias-primas virgens pelo material reciclado. Mas e a sociedade, o que ganha com isso e que interesse tem em participar desta atividade? A sociedade tem tanto a ganhar quanto a indústria, pois além dos ganhos ambientais que a reciclagem promove, ela é fonte de trabalho e renda para quase um milhão de brasileiros excluídos, que com esta atividade conseguem obter seu sustento e empreender no caminho de volta à sociedade. Portanto, um enorme ganho ambiental e social.

No conjunto, os benefícios econômicos e socioambientais da reciclagem de embalagens podem ser sumariamente exemplificados com os seguintes números: mais de 820 mil brasileiros tiram seu sustento desta atividade, 1.200 cooperativas de catadores empregam 30.400 pessoas que já arrecadaram mais de R$ 700 milhões.

A atividade de reciclagem de embalagens no Brasil, incluindo as indústrias recicladoras, gerou mais de R$ 10 bilhões em 2012 e estima-se que um valor
semelhante ainda pode ser resgatado do lixo a partir da coleta seletiva e dobrar o faturamento deste setor.

Existe um elo fraco que ainda não encontrou os ganhos necessários para uma maior inserção na cadeia da reciclagem. A maioria das prefeituras tem muitas dificuldades em montar programas de coleta seletiva, porque esta modalidade de serviço custa em média quatro vezes mais caro que a coleta convencional.

A necessidade de aumentar os índices de reciclagem agora está expressa em lei e todos os elos da cadeia precisarão se mobilizar para alcançá-los. Para que isso aconteça, algumas melhorias precisam ser implementadas. É preciso que as prefeituras municipais incentivem o aumento da coleta seletiva com a implantação de programas e de galpões de separação de embalagens para reciclagem, operados por cooperativas de catadores ou funcionários municipais.

Hoje apenas 14% dos municípios brasileiros têm algum tipo de coleta seletiva parcial. No Rio de Janeiro, por exemplo, o índice de coleta seletiva é de 1% do total de lixo coletado. Já em São Paulo o recolhimento não passa de 2%. Nas raras cidades com índices maiores de coleta seletiva, este número não chega a 20%.

Um dos obstáculos da implantação da coleta seletiva é o custo elevado em relação à coleta convencional, o que contribui para o entrave. Outro ponto que precisa receber atenção é a legislação tributária pertinente para empresas 100% recicladoras e que produzem a partir de matérias-primas já tributadas em sua origem.

A legislação atual acaba tributando novamente quando reciclada. Uma legislação mais justa, que promova e incentive a indústria recicladora é uma das exigências críticas para o crescimento deste setor.

Fabio Mestriner é Consultor da Ibema, Professor Coordenador do Núcleo de Estudos da Embalagem ESPM, Professor do MBA de Marketing da Fundace USP e autor dos livros “Design de Embalagem - Curso Avançado” e “Gestão Estratégica de Embalagem”.


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