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Reciclagem de papelcartão com plástico já é realidade

Publicado em 05/06/2019
Por Caroline Martin (Especial para O Papel)

Desfazendo o engano de que papéis de embalagem que recebem camadas plásticas não podem ser reciclados, a Ibema Papelcartão não só vem reciclando tais produtos como faz com que as embalagens pós-consumo retornem à fábrica para completar o portfólio fabricado atualmente. Na prática, as fibras das embalagens com plástico são recuperadas e voltam a ser usadas no processo produtivo de papelcartão.

Conforme contextualiza Fernando Sandri, diretor técnico e de Pesquisa & Desenvolvimento da Ibema, uma série de fatores levou a indústria de papel como um todo a não privilegiar a reutilização do papel revestido com plástico. No cenário nacional de alguns anos atrás, considerando a viabilidade econômica, acabou surgindo o entendimento de que não era conveniente reciclar esse tipo de material, ou ainda, de que não era possível reciclar papel revestido com plástico. “A reciclagem envolve produtividade, pelo aproveitamento do material a ser reutilizado em um produto específico. Com isso, muitas vezes, os custos não compensam”, justifica, adicionando que o material reciclado de papel no Brasil está entre um dos mais caros no mundo.

O surgimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos – instituída pela Lei n.º 12.305/10, que prevê a prevenção e a redução na geração de resíduos, tendo como proposta a prática de hábitos de consumo sustentável e um conjunto de instrumentos para propiciar o aumento da reciclagem e da reutilização dos resíduos sólidos e a destinação ambientalmente adequada dos rejeitos – alavancou uma mudança de postura por parte de todos os setores da indústria. “A Ibema tem como estratégia mudar aquele entendimento ultrapassado sobre reciclagem”, afirma Sandri.

Ele conta que a empresa participa da PNRS, em conjunto com outras
3.785 empresas de diversos setores, por intermédio da Indústria Brasileira das Árvores (IBÁ). “Essas empresas constituíram uma forma de trabalho chamada Coalizão, no qual participam todos os grandes fabricantes e foram assumidas metas para cumprir os requisitos da PNRS. Ali estão representados fabricantes de matéria-prima, players da indústria de embalagem, usuários finais de embalagens (end-users ou brand owners), comércio varejista e os demais principais elos do sistema produtivo e de utilização de embalagens”, detalha.

Desde 2016, por meio de um produto que utiliza aparas pós-consumo, a Ibema vem dando mais atenção a essa necessidade de reaproveitamento e, assim, respondendo à demanda por embalagens mais sustentáveis. “Hoje, fabricamos o PCR, um papelcartão triplex verso branco com essas características e já estamos lançando uma evolução do produto, chamado Ritagli”, revela o diretor técnico e de P&D da Ibema.

Para obter materiais disponíveis no mercado de forma padronizada e segura para utilização na máquina de papel, a Ibema conta com a parceria de empresas aparistas que atuam no setor de reciclagem há muitos anos. “Estabelecemos também uma aproximação com empresas que trabalham na reciclagem de pós-consumo, exigindo assim empenho forte de nossa área de suprimentos e de operação”, revela Sandri.

Ele acredita que, quando o setor de papel desenvolve um produto, deve mirar a utilização pelo consumidor final, mas também ter em mente que a embalagem desse produto voltará à indústria para reciclagem. “Para que os resultados sejam mais eficientes, o ideal é que o projeto seja feito de forma integrada entre fabricantes de embalagens, empresas de design, usuários de embalagem e varejo”, diz.

Sandri enfatiza que o envolvimento do consumidor final também é indispensável no processo. “Os consumidores são participantes chave para o sucesso de projetos que envolvam a reciclagem pós-consumo. Além da iniciativa da Ibema e de outros fabricantes de papel, é importante que os demais elos da cadeia participem, estimulando o consumidor a separar o material para que possa ser prontamente reciclado”, esclarece sobre o fator que acredita ser o mais desafiante. “Temos investido bastante nesse aspecto, buscando empresas que possam contribuir, orientando o consumidor. Além da coleta, queremos que eles incentivem seus consumidores a trazer de volta as embalagens, mas que elas sejam higienizadas da forma correta. Se foi usado para um café ou um sorvete, que o consumidor faça uma rápida limpeza e possa dispor essa embalagem de volta ao ciclo. A reciclagem pós-consumo de material contaminado pode gerar prejuízos na produção e colocar em risco todos os ganhos dos projetos dessa natureza.”


Por dentro do processo de reciclagem

A tecnologia usada na Ibema para a reciclagem do papelcartão consegue separar as fibras de celulose e o plástico por meio de um tratamento mecânico. As fibras do plástico começam a ser separadas logo no início do processo, quando entram para a produção. Com processos de calor, agitação e água, as fibras se separam do plástico e vão direto para a produção do novo cartão. “Metade dos nossos produtos contém alguma participação de material reciclado”, informa Sandri.



Foto: “Estabelecemos uma aproximação com empresas que trabalham na reciclagem de pós-consumo, exigindo assim empenho forte de nossa área de suprimentos e de operação”, revela Sandri.


Já o plástico recuperado pode ser destinado para reciclagem, para aterros ou para uma nova utilização, para compor novos materiais. “Hoje, ele acaba indo para aterro, o que acontece na grande maioria das indústrias. Mas estamos buscando parcerias para que possa haver uma destinação que revalorize esse material”, adiciona o diretor técnico e de P&D da Ibema, ressaltando que a empresa está preparada para aumentar o volume de material reciclado, de acordo com o aumento da demanda de uso do papelcartão com características para viabilizar a reciclagem. “Quanto mais projetos de reciclagem houver, mais se consegue utilizar o material reciclado em nosso produto. É o que queremos incentivar cada vez mais.”



Foto: Processo de reciclagem da Revita: empilhadeiras transportam os fardos de embalagens. Longa Vida pré e pós-uso para os hidrapulpers, onde o material é misturado à água e agitado por aproximadamente meia hora.


Consumidores, catadores, cooperativas, sucateiros, aparistas, recicladoras, indústrias de segmentos diversos e o poder público são os principais envolvidos na cadeia de reciclagem de embalagens. A Revita atua como mais uma empresa recicladora de embalagens – especificamente, embalagens Longa Vida pré e pós-consumo –, reintegrando celulose, alumínio e plástico à cadeia produtiva de diversos segmentos industriais.


Ibema investe em inovação para reduzir a participação do plástico nas embalagens

Em paralelo ao processo de reciclagem que vem colocando em prática, a Ibema atua em outra frente em prol do meio ambiente: o desenvolvimento de papéis e embalagens com novas funções. “O papel terá cada vez mais novas funcionalidades, seja revestido com plástico, polietileno, resinas ou outro tipo de barreira. O importante é que essas novas estruturas façam parte de projetos que melhorem o seu desempenho de forma global e que reduzam o impacto das embalagens atuais”, justifica Fernando Sandri, diretor técnico e de Pesquisa & Desenvolvimento da Ibema.

Entre os projetos em andamento, estão os de substituição, para que a embalagem demande menos material, apresente uma melhor proteção e, claro, seja reciclável. “A Ibema está em sintonia com projetos que tragam soluções mais sustentáveis em embalagem, seja na substituição do plástico, seja agregando um novo tipo de barreira”, revela Sandri.



Foto: Em paralelo ao processo de reciclagem, que vem colocando em prática, a Ibema trabalha no desenvolvimento de papéis e embalagens com novas funções.


A empresa acredita que a inovação é a maneira pela qual se busca novas soluções economicamente viáveis e que gerem benefícios adicionais aos diferentes elos da cadeia. Analisando o contexto atual, de demanda crescente por produtos mais sustentáveis, Sandri sinaliza que existe espaço para o crescimento do setor de food service, em função das tendências de consumo — fato que traz a necessidade de criar soluções práticas para a evolução da sociedade. “Neste momento, ocorre uma renovação da estrutura produtiva para fornecer produtos de origem celulósica que sejam economicamente viáveis. Sejam novos materiais, novos processos, novos produtos, ou combinações entre eles, todos precisam de projetos estruturados e de empresas que acreditem que novas soluções só acontecem quando saímos da situação atual e colocamos um forte empenho de toda a equipe nesse sentido.”

Considerando todas essas tendências, o diretor técnico de P&D da Ibema afirma que a empresa vislumbra constantes mudanças e adaptações de seu portfólio, em linha com a evolução da sociedade, que incluem crescimento populacional, aumento da idade média da população, urbanização, evolução tecnológica, protagonismo das mulheres, cuidados com a saúde, demanda por produtos mais sustentáveis, entre outros diversos fenômenos observados hoje em dia. “A Ibema sempre busca se reinventar e inovar seu portfólio de produtos e serviços. Para desenvolver tais soluções, contamos com nossos clientes gráficos, fornecedores e prestadores de serviço”, completa sobre a parceria que fortalece o processo de inovação.

“Começamos nossas atividades em 1990, portanto, 10 anos antes da criação da PNRS”, apresenta Anderson Miyake, executivo de Negócios da Revita. Bastante extensa por contemplar todos os tipos de resíduos sólidos gerados pela atividade humana, a PNRS define a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos considerando a obtenção da matéria-prima, a produção, consumo e o descarte final. Define também que as medidas da logística reversa sejam estendidas a todos os produtos e embalagens igualmente, embora enfatize itens mais problemáticos em termos ambientais, como agrotóxicos, pilhas, eletroeletrônicos e lâmpadas fluorescentes. “As empresas do ciclo produtivo devem se preocupar em conhecer a destinação final dos seus produtos, assim como oferecer alternativas para seu reaproveitamento ou descarte adequado”, explica ele.

Para cumprir essa determinação, desde a implantação da Lei, a Revita passou a informar formalmente o seu volume de reciclados aos fabricantes, para possibilitar e facilitar o processo estatístico de logística reversa. “No mais, investimos constantemente em novas tecnologias e equipamentos em busca de melhorias na qualidade de seus produtos e processos, sempre em prol da preservação do meio ambiente”, destaca Miyake.

Dando detalhes sobre como a logística reversa acontece, Luiza Loyola, diretora da Revita, informa que o processo tem início pela compra dos materiais recicláveis pré e pós-consumo, passa pela desagregação e separação dos componentes das embalagens e chega à fabricação dos produtos finais Revita cel (celulose reciclada) e Aluvita (polietileno e alumínio reciclados), úteis a diversos segmentos industriais. “A celulose reciclada das embalagens Longa Vida pode ser utilizada na fabricação de itens como papelcartão, papelão ondulado, caixas de papelão, chapas, tubetes, papel toalha, papel tissue, palmilhas para sapatos e bandeja de ovos, entre outros. Com o polietileno e alumínio reciclados, é possível produzir telhas para a construção civil, paletes, vassouras, canetas, banquetas, placas, coletores e também refratários, devido à sua capacidade de manter resistência a altas temperaturas”, lista ela.

Vanessa Colman, gerente de Produção da Revita, explica que os fardos de embalagens Longa Vida pré e pós-uso, com pesos que variam entre 150 kg e 400 kg, são adquiridos de cooperativas e aparistas, sendo estocados no pátio de aparas da empresa. Empilhadeiras transportam os fardos para os hidrapulpers (máquinas similares a grandes liquidificadores), onde o material é misturado à água e agitado por aproximadamente meia hora. Durante esse processo, as embalagens são dissolvidas e as fibras de celulose se separam do restante de material existente (basicamente plástico e alumínio). A emulsão resultante é filtrada dentro do próprio pulper, onde peneiras, com a furação adequada, retêm o plástico e alumínio, deixando escoar apenas a água com a fibra de celulose. O plástico e o alumínio são retirados, enfardados e enviados para empresas recicladoras desse tipo de material. Em um segundo processo de filtragem, uma peneira descarta apenas a água, deixando retida a celulose, que é, em seguida, bombeada para uma desaguadora e drenada, para posterior secagem, enfardamento e armazenamento para comercialização.



Foto: A celulose reciclada pela Revita pode ser utilizada na fabricação de itens como papelcartão, papelão ondulado, caixas de papelão, chapas, tubetes, papel toalha, papel tissue, palmilhas para sapatos e bandeja de ovos.


Atualmente, a Revita recicla 30 mil toneladas por ano. “Para o próximo semestre, pretendemos aumentar o volume reciclado em 35%”, adianta Vanessa. Para cumprir a meta, a empresa está trabalhando na ampliação da capacidade produtiva fabril com a aquisição de novos equipamentos – entre as modificações, estão mais uma máquina desaguadora e novas tecnologias, desde a etapa de captação de matéria-prima.

Embora o segmento de papel e celulose desponte como um dos mercados que mais aderem e praticam a PNRS, Luiza aponta que a população brasileira ainda carece de um trabalho mais voltado à educação ambiental no que compete à reciclagem.“O caminho para esse fortalecimento talvez tenha de ser iniciado pela iniciativa privada”, sugere a reflexão. “A interação de empresas recicladoras, como a Revita, com fabricantes de papel é extremamente importante – afinal, temos muitos objetivos em comum. Mas ainda vemos uma lacuna grande no diálogo com os grandes players”, constata ela. “Usando a PNRS como base, a obrigatoriedade de reutilização de um percentual de produto reciclado na confecção de um novo produto poderia ser uma alternativa eficaz para ajudar as empresas recicladoras a expandir seus mercados, incentivando o aumento da reciclagem e da economia circular”, adiciona Miyake, sublinhando que o fortalecimento de leis nesse sentido favoreceria não só toda a cadeia produtiva de papel, mas também o meio ambiente.


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